quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O Modernismo de Lévi-Strauss

Por Carlos Vogt

Peter Gay, em seu livro Modernism1, escreve, a propósito de Baudelaire, – o que os admiradores do poeta francês iriam repetir através dos anos –, que a sua voz era “a voz da poesia pura e simples. Não oferecia nenhum programa político, ético ou religioso; não tentava impressionar seus leitores com floreios retóricos; emergia dos sentimentos, não das ideias. Para Baudelaire a forma era um vaso que recebe a substância para moldá-la no feitio apropriado. Ele encontrava sempre, para emprestar uma frase de um de seus mais consistentes admiradores, T.S. Eliot, um “correlato objetivo” para o que quer que desejasse ─ ou talvez melhor, necessitasse ─ para expressar. Segue-se daí, com particular aplicação à Baudelaire (Eliot enfatizou bastante esse ponto), que a moralidade ou a imoralidade de um poema depende não do assunto de que trata mas do tratamento que lhe confere.”
No mesmo livro, no capítulo 1, denominado “Professional Outsiders”, aponta Baudelaire como o mais plausível candidato a ser considerado o pai fundador do Modernismo, ao lado de alguns outros poucos escolhidos, entre eles Marcel Duchamp, Virginia Woolf, Igor Stravinsky e Orson Welles. Destaca também que Baudelaire era, como os modernistas que vieram depois dele, um realista, mas um realista que detestava o entorpecimento da reprodução do mundo em poemas e pinturas e que tinha, ao mesmo tempo, ojeriza pela subjetividade exagerada, como acontecia com os românticos mais sofisticados. Daí sua resposta à sua própria pergunta sobre o que era para ele a arte pura, segundo uma concepção moderna: “É criar uma mágica sugestiva, contendo a um só tempo o objeto e o sujeito, o mundo exterior ao artista e o próprio artista.” (p. 33-34)
Faço esta abertura a um texto que deve falar de Lévi-Strauss, usando como referência o livro de Peter Gay e trazendo à baila Charles Baudelaire, porque penso encontrar aí, no livro e no poeta, algumas características da obra do pensador e estudioso francês, cuja antropologia, representaria, nas ciências humanas, a expressão maior e consagrada, no século XX, do que foi o Modernismo na arte e na literatura desde a segunda metade do século XIX e até o final da era industrial na história das ideias e do pensamento ocidental.
O estruturalismo de Lévi-Strauss estava comprometido com a busca de universais da cultura e, para isso, buscou constituir uma lógica do irracional, do inconsciente social expressa nos mitos e impressa na voz narrativa das coletividades cujas vozes contam o mundo e o homem que nele se apresenta, que o apresenta, que o representa e com ele é representado. Aqui o encontro da antropologia com a psicanálise é inevitável e a filiação das ideias de Lévi-Strauss às ideias de Freud, obrigatoriamente reconhecível.
Essa lógica, também essencialmente binária, por mais estranho que possa parecer à primeira vista, em nada difere, em complexidade e sofisticação, da lógica que opera com entidades abstratas e que, entre outras coisas, marcaria uma diferença fundamental entre a mentalidade pré-lógica do homem primitivo e a mentalidade lógica do homem moderno.
Nada disso! Para Lévi-Strauss, diferentemente do funcionalismo de Lévy-Bruhl ou do existencialismo de Sartre, a diferença entre o primitivo e o moderno não está propriamente no campo das formas de representação do homem no mundo e do mundo no homem, mas na forma de expressão dessas relações.
Assim como a lógica moderna usa categorias abstratas que, em oposição binária, permitem a formulação de ideias e conceitos, assim também a “lógica irracional” primitiva trabalha com essas oposições, mas num plano de expressão sensível que concretiza em objetos correlatos as abstrações que, de outra forma, se exprimem por símbolos lógicos e matemáticos.
Aqui mesmo na revista ComCiência http://www.comciencia.br, número 89, de julho de 2007, sobre Determinismos, tive oportunidade de escrever que o triângulo culinário

articulado sobre as oposições binárias transformado / natural e cultura / natureza, baseia-se no triângulo vocálico e das consoantes de Jakobson e Halle e todos constituem-se, eles próprios, em objetos correlatos, “bons para pensar”, de categorias abstratas que se opõem, na lógica do cálculo proposicional, tal como as apresenta Robert Blanché no livro Les structures intelectuelles2.
Como diz Edmund Leach, a propósito dessa forma peculiar do entendimento de Lévi-Strauss a respeito da lógica dos mitos, nas suas Mitológicas:
“O pensamento primitivo difere tanto do pensamento científico quanto o uso de um ábaco difere da aritmética mental, mas o fato de que, em nossa época atual, caminhamos cada vez mais para depender de coisas exteriores a nós próprios ─ como os computadores ─ para nos ajudarem a resolver problemas de comunicação e de cálculo, faz com que este seja um momento adequado para examinar o modo como o povo primitivo está apto, do mesmo modo, a tornar compreensíveis os eventos de sua vida cotidiana, por referência a códigos compostos de coisas exteriores a eles próprios ─ como os atributos de espécies animais.”3
A busca do estabelecimento desses códigos, feitos de exterioridades sensíveis, constitui como que uma poética da razão humana, um poema feito de mitos, uma partitura de silêncios e ruídos, uma síntese multiplicada de objetos correlatos em que se fundem natureza e cultura, os objetos naturais e os cérebros humanos que os captam e os apreendem em produtos culturais, eles mesmos tão universais quanto as estruturas intelectuais de suas representações para o homem e do homem para as coisas que se lhe apresentam representadas em imagens e conceitos.
Como escreve Lévi-Strauss, citado por Leach4:
“A antropologia propicia-me uma satisfação intelectual: ela une, num extremo, a história do mundo e, no outro extremo, a minha própria história, e desvenda a motivação compartilhada de um e do outro, no mesmo momento.”
Nisso a modernidade de Lévi-Strauss é modernista como o é também o realismo romântico de Baudelaire e ambos, nas duas pontas de manifestações de pensamento diferenciadas, pertencem ao mesmo paradigma poético e intelectual que marca uma trajetória encerrada no final dos anos 1980, quando, terminando também o século XX, o global substitui o universal.

O número 108, da ComCiência, que foi ao ar em 10/05/09, é uma homenagem aos 100 anos dessa personalidade que marcou o século XX por seu trabalho, sua criatividade, seu pensamento fundador e revolucionário, por sua arte ensaística, por seus ensaios de antropologia e poesia.

Lévi-Strauss morreu em 30 de outubro de 2009, pouco menos de um mês antes de completar 101 anos. Perda marcante, como é marcante sua presença na construção militante da dignidade humana pela inteligência, pela emoção, pelo conhecimento.
Reeditamos, para dezembro e janeiro, o número 108 da ComCiência, ampliando-o e ecoando, na altura de nosso alcance, a voz do autor que, como nos mitos ─ objetos de suas incansáveis pesquisas ─, nos conta a saga de nosso trajeto entre natureza e cultura e as lutas que conosco e entre nós travamos para transformá-lo, de destino, em destinação.
Notas
1 Gay, P. Modernism. Nova Iorque/Londres: W.W. Norton & Company Inc.; 2008. p. 40.
2 Blanché, R. Les structures intellectuelles. Paris : Librarie Philosophique J. Urin; 1969.
3 Leach, E. As ideias de Lévi-Strauss. São Paulo: Cultrix; 1977. p.80.
4 Leach, E., Op.cit., p. 28