terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O Capital em Luta Contra a Lei da Gravidade.

EDIÇÃO nº 1003 e 1004; ano 24; 3ª e 4ª semanas de Janeiro/2010

O Capital em Luta Contra a Lei da Gravidade.
No regime capitalista de produção a lei do valor-trabalho corresponde à lei da gravidade da física. É a essa determinação interna da dinâmica dos ciclos e crises periódicas que os capitalistas procuram neutralizar com
instrumentos políticos, externos ao processo de valorização. 

Por, JOSÉ MARTINS

No Japão, segunda maior economia do mundo, não são apenas os preços (e a taxa de lucro) que caem. Caem também os aviões. Melhor dizendo, aviões em forma de  capital,  em  forma  de  ações  das  suas  gigantes  empresas  de  aviação.  Japan Airlines, a maior empresa aérea do Japão (e da Ásia) declarou falência em 19 de Janeiro  2010 (1).  É  a  maior  quebra  de  uma  empresa  japonesa  de  fora  do  setor
financeiro desde a Segunda Guerra Mundial.
Mas,  antes  que  o  capital  virasse  pó  e  causasse  efeitos  perigosamente dilacerantes  no  mercado,  a  empresa  foi  providencialmente  socorrida  pelo governo japonês, tornando-se assim a mais recente empresa estatal do formidável e  tão  eficiente  sistema  de  livre-mercado  capitalista!  Vamos  então  à  lição  da
semana: como  ressuscitar o capital  falido? Com muito dinheiro público para as empresas privadas falidas e um ponta-pé na bunda dos trabalhadores - no caso da Japan Airlines, demissão de 15.600 trabalhadores, só para começar.

IDÉIAS  E MATÉRIA  – O  último  período  de  crise  já  revelou  abundantemente  a natureza  desse  comunismo  dos  capitalistas  –  o  Estado,  essa  forma  de manifestação  de Deus  na  terra,  de  que  falava Hegel,  exercendo  sem  pudor  sua verdadeira  função  de  comitê  de  negócios  da  burguesia  e  de  administrador  da repressão  armada  da  luta  de  classes.  O  movimento  real  do  capital  confirma
nossas  principais  teses.  Tudo  que  se  diz  do  Estado  moderno  separado  dessa natureza  essencial  não  passa  de  elucubrações  filosóficas  e  acadêmicas procurando esconder sua prática material.
O  que  interessa  verificar  neste movimento  prático  dos  capitalistas  é  um problema central na dinâmica do mercado nos períodos de crise e tentativa de se evitar  a  tendência  catastrófica  do  sistema:  pode-se  afirmar  (ou  negar)  com segurança que essas intervenções políticas externas (Estado) são suficientes para
reverter as pressões internas da superprodução de valor e mais-valia? De maneira mais  prática:  a  intervenção  do Estado  no  curso  da  economia  apresenta  sempre instrumentos  capazes  de  neutralizar  a  tendência  à  queda  da  taxa  de  lucro  e reinaugurar  um  novo  período  de  expansão?  Os  economistas  (liberais, keynesianos  e marxistas)  não  têm  nenhuma  dúvida  que  isso  sempre  acontece.
Mas há controvérsias.
O  melhor  é  ser  modesto  neste  assunto  que  centraliza,  mais  que  em qualquer outro, infinitos pontos de vista (e interesses materiais, por supuesto) das diversas classes sociais do atual regime. As inúmeras concepções ideológicas da forma de existência e das possibilidades de luta das classes sociais, por exemplo,
estão envolvidas neste assunto.
A  única  coisa  certa  é  que  essas  indagações  nos  colocam  frente  ao problema central da análise das crises e ciclos econômicos: a intervenção política se  sobrepõe ao problema  econômico? Quem acertar  a  resposta estará  acertando também  nas  perspectivas  da  economia mundial  daqui  até  o  fim  do  ano.  É  na prática  do movimento material  que  se  comprova  as  boas  formulações  teóricas.
Quem se habilita?
 NÚMEROS CRUCIAIS – Uma sucinta atualização do que se passa neste momento com as condições internas da produção de valor e de mais-valor – que nada mais é do que a popular produção industrial – pode ajudar na solução do problema. É aqui  que  se  origina  e  se  desdobra  aquela  força  de  gravidade  da  economia  que falamos no  início. Os mais  recentes números divulgados pelo Federal Reserve (2) sobre a produção industrial norte-americana, divulgados nesta semana, mostram, neste sentido, coisas muito importantes.
Primeiro,  a  produção  de manufaturas  (bens  duráveis  e  não-duráveis)  da economia  reguladora  do mercado  mundial  caiu  pesadamente  no  ano  de  2009: exatamente  11,4%  sobre  2008,  no  qual  já  tinha  caído  3,2%  sobre  2007.  Isso é uma manifestação muito  forte da  lei do valor-trabalho. Tem que ser  levada em conta  em qualquer  análise que  se proponha  a um mínimo de  seriedade. Não se tem notícia de queda tão profunda da produção de valor, pelo menos nos últimos setenta anos. Pode-se verificar, apesar da precariedade das fontes disponíveis, se em algum ano da Grande Depressão (anos 1930) houve uma  queda desta magnitude. Parece que não.
Os dados divulgados no relatório do Fed mostram também que a utilização da capacidade das manufaturas  em 2009 ficou na média anual de 66,9. Para se ter idéia, a média da utilização nos últimos trinta anos foi de 79,6. O nível mais baixo anterior (72,7) havia sido no ultimo período de crise (2000-2002). Portanto, outro  recorde  de  queda,  no  ano  passado, muito próximo da catástrofe econômica, quer dizer, de uma crise geral do sistema. Em outro plano da evolução do ciclo, contrapondo-se aos movimentos do ano passado como um todo, os dados mostram que a produção começou a se recuperar no terceiro trimestre de 2009  (aumento de 9,0% em termos anuais). Depois cresceu um pouco menos (5.7%) no quarto trimestre 2009. No mês de Dezembro a produção das manufaturas ficou patinando próxima de zero, embora o setor de
maquinários tenha apresentado o primeiro sinal de recuperação (aumento de 2.3%) depois de um mergulho de quase 20% no ano de 2009. Isso se reflete na taxa de acumulação do capital industrial, medida pelo indicador capacidade industrial do Fed. No quarto trimestre de 2009 essa taxa caiu bombásticos 1,7%,
na seqüência de cinco trimestres seguidos de queda. Nada parecido, mais uma vez, desde a Grande Depressão.

PATINANDO EM FINA CAMADA DE GELO  –  Para concluir esse boletim, uma observação  preliminar:  embora  a  economia  real  mostre  sinais  claros  de recuperação  do  período  de  crise,  encerrado  no  terceiro  trimestre  de  2009,  o período  de  expansão  inaugurando  um  novo  ciclo  econômico  ainda  é, aparentemente,  muito  tímido.  A  economia  global  ainda  não  restaurou  a  taxa
média de  lucro do período de  expansão do  ciclo  anterior.  Isso  acontece devido àquela enorme derrocada da produção e do emprego no auge da recente crise. A superação dessa queda da força da gravidade do sistema é necessariamente muito penosa, muito mais difícil que em ciclos anteriores.
As  condições  internas  da  acumulação,  entretanto,  indicam  que  o  mais provável  é  uma  recuperação  mais  forte  no  decorrer  do  ano.  Mas  pode  haver surpresas.  Isso dependerá de  novos  aumentos da produtividade  (exploração)  da força  de  trabalho,  o  que  verificaremos  com  dados  a  serem  publicados  pelo Departamento do Trabalho dos EUA no começo de Fevereiro.
Dependerá  também  do  saneamento  administrativo  (Estado)  de  alguns gargalos  financeiros nos EUA  e China, principalmente, que  ainda  restam e que poderiam neutralizar os avanços dos últimos meses do capital na base produtiva de mais-valia (lucro) e jogar a economia em novo e mais profundo mergulho.
Essa perspectiva de um duplo mergulho, entretanto, não é a mais provável.
Nossa torcida para que isso aconteça é a maior do mundo, mas ela não altera em nada  aquela  indicação  anterior  do mundo  real  de  que  o mais  provável  é  uma consolidação  da  paz  dos  cemitérios  por  mais  três  ou  quatro  anos.
Aprofundaremos melhor essa análise nos próximos boletins.


(1) “Japan Airlines, a maior companhia aérea do Japão, declara falência. A Japan Airlines (JAL), maior
companhia aérea do continente asiático, endividada e atingida por grandes prejuízos, declarou-se nesta
terça-feira em falência e iniciou um severo plano de resgate que incluirá o corte de cerca de 15.600
postos de trabalho” Agência AFP, 20/janeiro/2010.
(2) Federal Reserve System – “Industrial Production and Capacity Utilization”- Janeiro, 15, 2010



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