quinta-feira, 4 de março de 2010

...decrescimento sustentável talvez sim, mas sociedade do conhecimento? ? ?

O problema é que a "sociedade do conhecimento" também é uma ilusão, uma farsa, um anúncio formal de que todo e qualquer indíviduo pode acessar a informação (conhecimento?) e isso seria suficiente para obter um cidadão mais consciente e bla bla bla bla!!! Balela... não existe esse livre acesso. A maioria dos cidadãos brasileiros não tem esse acesso. Quem e quantos livros lêem por ano? Quem e quantos tem um computador em casa? E desses quantos tem acesso à net? Agora, se perguntar: Quem e quantos se esbaldam com a televisão e sua imbecil e empobrecedora programação semanal e pior ainda, dominical?

É, parece que temos quase tudo por fazer na luta por uma modelo societário que supere 'A sociedade capitalista (do desenvolvimento econômico a qualquer custo)...'

De qualquer maneira, vale a pena a leitura do texto.

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Sociedade do conhecimento e desenvolvimento sustentável, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


[EcoDebate] A sociedade capitalista (do desenvolvimento econômico a qualquer custo) tem como base a obtenção de lucro por meio da produção contínua e crescente de bens e serviços úteis ou supérfluos. Para incentivar o consumismo desenfreado, o capitalismo montou toda uma máquina de propaganda, não só através da mídia escrita, falada e televisionada, mas também nos outdoors, placas de loja em loja e de bar em bar e até na Internet. Em uma situação de crescimento populacional, esta máquina de propaganda e consumo fez crescer o PIB do planeta e agora o mundo tem uma pegada ecológica que é 30% maior do que a capacidade que a Terra tem de se recuperar e renovar seus recursos. No ritmo atual, projeta-se que precisaremos de dois planetas para garantir os consumo da humanidade em 2030. O atual modelo é insustentável. Como então garantir a sobrevivência da biosfera (incluindo o ser humano e a biodiversidade)?
Alguns dizem “O mundo tem gente demais” e propõem diminuir a população. Outros dizem “O mundo tem consumo demais” e propõem diminuir o consumo. Há também os que querem diminuir a população e o consumo ao mesmo tempo. Existem ainda aqueles que denunciam as desigualdades e querem uma melhor distribuição da “riqueza”. Contudo, distribuir simplesmente o consumo não resolve o problema da sustentabilidade ambiental, porque o consumo médio está acima da capacidade de carga do planeta. Uma coisa é certa: mantendo o atual padrão de produção e de consumo, a humanidade caminha para o suicídio e o ecocídio.
O que fazer então? Existem alternativas?
Serge Latouche, por exemplo, defende a idéia do “decrescimento sustentável”, pois acredita que mesmo a idéia do “desenvolvimento sustentável” é inviável. Ele defende uma vida mais simples, com menor consumo por pessoa e uma sociedade que respeite os limites dos recursos naturais. Ele propõe um ciclo virtuoso de decrescimento, por meio dos seguintes conceitos: reavaliar, reconceitualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reutilizar e reciclar.
Autores como Herman Daly e Manfred Max-Neef defendem a idéia da “condição estável” (retomando um antigo conceito econômico do “estado estacionário) e combatem o chamado “crescimento deseconômico”, que é o aumento na produção que provoca um custo em recursos e em bem-estar maior do que o dos itens produzidos.
Sem dúvida, estas idéias que questionam o crescimento ecologicamente insustentável são importantes para se pensar em alternativas ao modelo econômico consumista da atualidade. Reduzir a pegada ecológica do ser humano é uma necessidade inadiável.
Porém, paralelamente à redução do consumo conspícuo e supérfluo e à diminuição das atividades econômica que danificam e poluem o Planeta, pode haver o crescimento de atividades que sejam ecologicamente neutras ou sustentáveis. Refiro-me às atividades culturais, científicas, afetivas e de conhecimento que não são baseadas no consumo material, mas sim na produção intangível e imaterial do conhecimento.
A “sociedade do conhecimento” é uma alternativa à “sociedade do consumo” na medida em que a essência do seu modo de funcionamento tem como base a “massa cinzenta” (cérebro) e não requer fronteiras delimitadas pela propriedade privada local e pelos nacionalismos, já que é uma sociedade desterritorializada.
Para que seja realmente sustentável esta sociedade pós-desenvolvimentista requer a democratização e o livre acesso à informação e ao saber. A inteligência é ilimitada, assim como ilimitado pode ser o seu uso. A sociedade do conhecimento não está sujeita às “leis dos rendimentos decrescentes”. Portanto, o livre conhecimento não restringe e nem é restringido pelos “limites terrenos do crescimento”. O livre pensar e o exercício do conhecimento não tem limites e pode crescer de maneira ecologicamente sustentável.

José Eustáquio Diniz Alves, articulista e colaborador do EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE. E-mail: jed_alves{at}yahoo.com.br
EcoDebate, 03/03/2010