terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Sorvete de cerveja?

Às vésperas da virada de mais um ano deste terceiro milênio, nos deparamos com algo que é no mínimo chocante, se não entendêssemos a lógica que organiza o consumo e a circulação do capital nesta sociedade.

No post de hoje, faço uma repostagem do pessoal do Infância Livre de Consumismo. O post fala por si.

Sergio Moura.

Texto de Mariana Sá*
Sorvete de cerveja? Não, obrigada!
Hoje uma notícia inusitada apareceu na minha tela: uma cervejaria vai lançar um sorvete sabor cerveja para refrescar o verão! Ora, se eu não tivesse filho, ou se tivesse e ainda não tivesse sido iniciada na atividade da reflexão e do questionamento, acharia este lançamento muito divertido!
A promessa da empresa é surpreender o consumidor, estar bem perto, se antecipando às tendências de mercado. O desejo do setor de comunicação da empresa é transformar o sorvetinho na sobremesa do verão. Realmente muito divertido!
Além de divertido, o produto promete ser inofensivo por não conter álcool e ter a venda permitida apenas em bares, evitando assim que crianças e adolescentes tenham acesso ao produto no ponto de venda, porque, afinal, o sorvete está associado a uma marca “para maiores”.
E se é tão divertido e potencialmente inofensivo, por que, cazzo, estou aqui reclamando?
Porque eu não sou besta e sei que esta é sacada super eficaz para acostumar o paladar dos jovens a algo que normalmente as pessoas levam tempo para gostar por causa do sabor amargo da cerveja, levando tempo para apreciar. Retorno de imagem (e financeiro) a curto e a longo prazo!
Fazer um sorvete com sabor de cerveja, mesmo sem álcool, – assim como fizeram com o Ovo da Páscoa – é uma estratégia para fidelizar clientes desde o berço e acelerar o processo de consumo e simpatia por uma marca.
O que espero das autoridades?
Eu adoraria que algum órgão lograsse êxito na proibição do lançamento desse produto, mas tenho poucas esperanças. Então, eu gostaria muito que fossem feitos alertas para que os pais mais descolados e cervejeiros percebam a manobra e evitem que seus filhos tenham contato com este produto. Tudo tem seu tempo, e o tempo de tomar uma cerveja com o filhão numa tarde de verão é quando ele atingir a maioridade.
*Mariana Sá é publicitária e mestra em políticas públicas. É mãe de dois e escreve no blog viciados em colo. Co-fundadora do Movimento Infância Livre de Consumismo.