terça-feira, 7 de maio de 2013

Aluno refletindo sobre a educação pública goiana


Reproduzo na íntegra um texto de um aluno do ensino médio de uma escola estadual em Goiás, que faz uma reflexão um tanto contextual. Parabéns Lucas Nascimento!


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A Educação no Estado de Goiás

Parabenizo imensamente o secretário da Educação do Estado de Goiás, Thiago Peixoto, por seu empenho, se assim posso dizer, em prol do processo de ensino aprendizagem nas escolas goianas. Mas acompanhando suas atitudes e decisões, principalmente como representante de sala e participante ativo da vida escolar do Colégio Estadual Salim Afiune, pergunto-me: estará ele tomando o rumo certo? O principal agente da reforma seria o professor? E os alunos desmotivados, desinteressados, sempre preocupados com futilidades, absortos em seu mundo irreal de tecnologia e descaso? Os professores figurarão como herois e heroínas, salvando a pátria brasileira da ignorância? Claro, eles possuem sim esta capacidade, mas interligados a família, a sociedade como um todo. Em momento algum vi menção a esta realidade no Pacto Todos pela Educação. Parece que ninguém ainda pensou no que fazer com os alunos indisciplinados, que depois da ruptura com o tradicionalismo, podem tudo.
Falo com propriedade como aluno do 3º ano do Ensino Médio, que sempre estudou em escola pública. A questão é bem mais grave do que se pensa. Tenho colegas que não sabem diferenciar um verbo e um substantivo, mas lembro-me de ter estudado junto a eles estas classes gramaticais, de maneira bem ilustrada pela professora de Língua Portuguesa. Seria neste caso culpa do professor? A aprendizagem foi ineficiente por que ele em si foi ineficiente em seu papel? Como eu aprendi e meus colegas não? A culpa seria do aluno que simplesmente “esqueceu-se” deste conteúdo ou não teve um melhor acompanhamento pedagógico? Ou eu que sou um gênio (que cá entre nós é mentira)? Como um professor pode auxiliar trinta alunos ou mais em aulas de cinquenta ou quarenta e cinco minutos? Já contabilizou quanto gastaria com cada aluno direcionando a ele apenas um minuto? São entraves como este que me incita o pensamento e faz-me crer que a culpa não é do professor, como muitos acreditam e dizem. Não negarei que o Estado possui professores com metodologias e didáticas ultrapassadas que precisam ser reformuladas ou que simplesmente, como se diz na linguagem popular, “empurram com a barriga.”
Se hoje escrevo estas palavras, devo aos meus professores de escola pública que são obrigados a fazerem paralisações por melhores salários, por valorização do plano de carreira e, sobretudo reconhecimento. Nada me tira da cabeça que estes críticos da Educação deveriam fazer o teste de dar aula em uma sala com trinta alunos, de diferentes temperamentos, que falam ao mesmo tempo e não possuem nenhuma perspectiva de vida. Repito o que disse aos meus queridos professores no Trabalho Coletivo do último dia 12 de outubro: “Não se pode enfiar o conteúdo goela abaixo do aluno. É preciso que ele queira aprender.” E acrescento agora: eles não são mágicos, mas seres humanos. Como ensinar algo a quem não quer aprender? Haveria maior frustração para um professor do que ouvir de seu aluno: “Isso aqui não me importa. Quero só o meu diploma.”
Senhor secretário, peço-vos em nome dos alunos que represento: vá devagar com o andor que o santo é de barro. Estude primeiro o terreno, constate que não se trata de areia movediça, para que não se afunde. Valorizar os professores não significa simplesmente compensá-los financeiramente, mas dar-lhes a devida atenção, não os culpando unicamente pelo desastre da Educação. Dividamos o bolo entre nós. Isto aí: eu, o senhor, os pais, meus colegas de sala que não entendem o quanto estão perdendo, o sistema educacional, os planos educacionais infundados e utópicos, a sociedade em si.
Outra coisa que precisamos é cassar (destruir, para os que não sabem) a ideia de que leitura, interpretação de texto, lógica e raciocínio são competências cognitivas exclusivas de Língua Portuguesa e Matemática. A primeira solução seria estendê-las a todas as outras disciplinas, pois da maneira que se dá a entender os professores de Língua Portuguesa e Matemática são os “bodes expiatórios” da Educação. A propósito a imagem que a Avaliação Diagnóstica nos passa é que estas duas disciplinas são as duas únicas importantes no Currículo, como se a Química, a História, a Geografia e ademais, não tivessem a mesma significância.
Não pensem que meus professores me pediram para escrever este texto, pelo contrário, nem imaginam. Eu mesmo quis escrevê-lo para retribuir o muito que me deram nestes doze anos de Educação e para mostrar que alunos do Estado também saber dissertar, escrever, desde que queiram e se empenhem. Agradeço a minhas professoras de Língua Portuguesa que me incitaram na alma o gosto pela leitura e me deram toda a noção de sintaxe, morfologia e produção de texto.
Que o ano que vem, no próximo dia dos professores, eu possa estar escrevendo para parabenizar realmente o senhor secretário pelo sucesso de seu, ou melhor, nosso pacto pela educação.
Quanto a mim, já estou em clima de despedida do colégio que tanto amo. É como brinco com meus professores “é como se estivesse me preparando para uma amputação.” Sei que sou uma exceção a regra em todos os termos. Mesmo vendo o quanto meus queridos educadores sofrem, deixando de lado suas vidas, em razão da vida de outrem, tornando-se frustrados, depressivos, quero enveredar-me pelo mesmo caminho que anos antes eles enveredaram, acreditando que estariam fazendo um bem para a humanidade e a juventude em si.
Obrigado queridos professores goianos por ainda acreditarem no poder da Educação, mesmo com todos os percalços e dissabores que enfrentam!!!

Lucas Pedro do Nascimento
Representante de sala
Aluno do 3º ano do Ensino Médio
Colégio Estadual Salim Afiune
Subsecretaria de Educação de Silvânia
Secretaria de Estado da Educação de Goiás