segunda-feira, 27 de maio de 2013

Autoridade Pedagógica em tempos de Tecnocracia Educacional

Autoridade necessária

Para José Sérgio de Carvalho, os educadores precisam assumir a posição de liderança; não de forma coercitiva, mas por meio de uma relação de confiança
Thiago Minami

“Educação não é ciência, é política. Devemos recusar o estabelecimento de regras prontas sobre o ato de ensinar almejadas pelos tecnocratas e os sistemas de apostilas”
Muitos pedagogos defendem a realização de assembleias nas escolas para a definição democrática de direitos e deveres da comunidade escolar. Para o filósofo da educação José Sérgio Fonseca de Carvalho, da Faculdade de Educação da USP, essa ideia quase consensual trata-se de um equívoco. “Assembleias são práticas pedagógicas para que os alunos conheçam o conceito de Ágora, a praça pública para discussões políticas”, afirma. Durante sua palestra na Educar 2013, ele expôs que instituir a autonomia no ambiente escolar, por si só, implica uma decisão de cima para baixo tomada pelos adultos. Na opinião de Carvalho, “para a educação, a democracia é o ponto de chegada, não de partida”.
O pesquisador recorre ao conceito de educação defendido pela pensadora Hannah Arendt, a partir do qual educar é amar o mundo ao ponto de assumir a responsabilidade sobre ele e salvá-lo da ruína pelo repasse do que já foi compreendido pelas sociedades anteriores. Com isso, o aluno torna-se autônomo para quebrar com o passado e inovar – é o que ela chama de “milagre”, ou seja, o ato de romper com o curso natural das coisas.
“Podemos pensar assim que a eleição de Obama, em vista do passado de repressão e exclusão dos negros nos Estados Unidos, é um milagre. Nada tem a ver com o sobrenatural”, explica Carvalho. Para chegar ao atual presidente americano, no entanto, foi necessário aos políticos e eleitores entender como funciona o sistema político do país e jogar com o pré-estabelecido.
Autonomia desde cedo?
Daniela Alves Soares, analista educacional da rede Sesi de São Paulo, discorda. Para ela, é preciso trabalhar a autonomia das crianças desde cedo para que elas se tornem aptas a ser cidadãs livres no futuro. Carvalho rebate com a ideia de que a escola não deve buscar ser democrática e, sim, preparar os alunos para a democracia. Portanto, precisa se tornar um espaço para a pluralidade de visões.
“Pergunte a alguém: ‘o que você acha da cozinha vietnamita?’. A pessoa precisa experimentar os pratos para responder”, explica o professor. Ou seja, a escola tem a função de instruir os alunos para que exerçam seu direito de escolha no futuro. Assim, tornam-se cidadãos políticos, capazes de expressar suas posições pela palavra, sem recorrer à violência.
“Imagine que os alunos, em assembleia, decidam que a escola não deve aceitar negros. Como educadores, vocês não iriam interferir?”, questiona Carvalho.
A autoridade na escola, diz ele, é necessária. Não como relação de coerção, mas de confiança. Os educadores, na posição de líderes, têm que assumir posições e tomar decisões. E encerra com uma provocação: “educação não é ciência, é política. Devemos recusar o estabelecimento de regras prontas sobre o ato de ensinar almejadas pelos tecnocratas e os sistemas de apostilas”.